Asteya é o terceiro dos princípios éticos do código de conduta adotado pelos yogis. A palavra deriva do sânscrito, sendo formada pelo prefixo a, que significa “não”, e steya, que significa “roubo”. Asteya consiste em não tomar para si aquilo que não lhe pertence, seja por meio de ações, palavras ou pensamentos. Seu significado, entretanto, vai muito além do simples ato de não furtar bens materiais. Representa o cultivo da honestidade, do respeito e da confiança, reconhecendo que cada ser possui seu próprio caminho, seu tempo e os frutos de suas próprias ações.
Asteya está intimamente relacionado aos princípios de Ahimsa e Satya. Quem pratica a não violência e vive na verdade naturalmente desenvolve respeito pelo que pertence ao outro. O roubo nasce da sensação de escassez, da comparação, da cobiça ou da crença de que nos falta algo para sermos completos. O Yoga ensina que, quando reconhecemos nossa própria plenitude, desaparece a necessidade de apropriar-nos daquilo que pertence aos outros.
A ética do Yoga procura eliminar toda forma de desonestidade, seja ela evidente ou sutil. Portanto, o conhecimento apenas intelectual de Asteya não é suficiente. O princípio somente se estabelece quando o praticante desenvolve uma postura íntegra diante da vida, respeitando não apenas os bens materiais, mas também o tempo, a energia, as ideias, os sentimentos, os méritos e a confiança das outras pessoas. É por meio da observação constante e da prática diária que Asteya passa a manifestar-se espontaneamente em todas as atitudes.
Roubar não significa apenas retirar um objeto que pertence a outra pessoa. Também roubamos quando nos apropriamos do trabalho alheio sem reconhecer sua autoria, quando fazemos promessas que não pretendemos cumprir, quando desperdiçamos o tempo de alguém por falta de compromisso ou quando buscamos reconhecimento por méritos que não conquistamos. A desonestidade pode manifestar-se de maneira silenciosa, por meio da manipulação, da exploração ou da omissão, causando sofrimento tanto para quem pratica quanto para quem sofre suas consequências.
Asteya também diz respeito à relação que estabelecemos com nossos próprios desejos. A comparação constante, a inveja e a necessidade de possuir aquilo que pertence aos outros alimentam um estado permanente de insatisfação. O Yoga ensina que o apego ao que não possuímos nos afasta da experiência do momento presente e enfraquece a capacidade de reconhecer a abundância que já existe em nossa própria vida. Praticar Asteya é desenvolver contentamento, gratidão e confiança de que aquilo que realmente nos pertence chegará no tempo adequado.
Esse princípio manifesta-se igualmente em nossa vida profissional, familiar e social. Agir com ética, cumprir acordos, respeitar direitos, valorizar o trabalho das pessoas, reconhecer suas contribuições e utilizar recursos com responsabilidade são expressões práticas de Asteya. Da mesma forma, explorar alguém em benefício próprio, aproveitar-se da boa-fé alheia, manipular situações para obter vantagens ou buscar ganhos injustos representam formas de violar esse princípio.
O Yoga também ensina que podemos roubar de nós mesmos. Quando negligenciamos nossos talentos, desperdiçamos nosso tempo com hábitos que não favorecem nosso crescimento ou deixamos de viver de acordo com nossos valores por medo ou insegurança, estamos privando a nós mesmos da oportunidade de desenvolver plenamente nosso potencial. Asteya convida o praticante a assumir responsabilidade pela própria vida, utilizando seu tempo, sua energia e suas capacidades de maneira consciente e respeitosa.
À medida que Asteya se fortalece, desaparece a necessidade de competir constantemente ou de medir o próprio valor pelas conquistas dos outros. Surge uma relação mais saudável com a prosperidade, baseada na confiança, na generosidade e no reconhecimento de que há espaço para o crescimento de todos. A abundância deixa de ser compreendida apenas como posse material e passa a ser percebida como um estado interior de satisfação e equilíbrio.
Os textos clássicos afirmam que, quando o praticante está firmemente estabelecido em Asteya, todas as riquezas lhe são naturalmente oferecidas. Isso não significa que receberá bens materiais sem esforço, mas que sua integridade desperta confiança, fortalece seus relacionamentos e o torna receptivo às verdadeiras riquezas da vida, como a paz, a sabedoria, as boas oportunidades e o respeito das pessoas.
Assim como Satya prepara o caminho para Asteya, a vivência do não roubar conduz naturalmente ao próximo Yama, Brahmacharya. Quando deixamos de buscar fora aquilo que acreditamos nos faltar, aprendemos a direcionar nossa energia com consciência, equilíbrio e propósito. É dessa relação madura com os desejos que nasce a verdadeira moderação ensinada pelo Yoga.
“Quando o praticante está firmemente estabelecido em Asteya, todas as riquezas lhe são oferecidas.”
Yoga Sutra de Patañjali (II.37)
Namastê ॐ